Universidade, expansão e estratégia
Hélio Laranjeira
2/12/20262 min read


O Brasil expandiu o ensino superior de forma significativa nas últimas décadas. Houve interiorização de campi, ampliação de vagas e diversificação institucional. O acesso aumentou. Esse movimento foi relevante para democratizar oportunidades. Mas a expansão, por si só, não resolve a questão central: qual é a função estratégica da universidade brasileira?
O país ainda apresenta baixa produtividade científica proporcional ao seu tamanho, dependência tecnológica e limitada conversão de pesquisa em inovação. O problema não é a inexistência de políticas, mas a ausência de coerência sistêmica.
A universidade brasileira acumulou funções. Tornou-se espaço de formação profissional, política de inclusão social, certificação acadêmica e produção científica simultaneamente. Ao tentar atender a todas essas expectativas, perdeu foco.
Nem toda formação precisa ocorrer dentro da universidade. A experiência internacional mostra que sistemas mais eficientes diferenciam com clareza formação técnica e formação científica. Institutos tecnológicos fortes, integrados ao setor produtivo, convivem com universidades concentradas em pesquisa e inovação. Essa diferenciação reduz dispersão e aumenta eficiência.
No Brasil, a fronteira entre esses dois papéis é difusa. O resultado é uma estrutura que, muitas vezes, reproduz modelos generalistas e pouco conectados às demandas estratégicas do desenvolvimento nacional.
A discussão sobre financiamento costuma girar em torno do volume de recursos. A questão mais relevante é sua alocação. Quanto custa manter cursos pouco estratégicos? Quanto custa a baixa taxa de inovação? Quanto custa a dependência de tecnologia importada?
Reorganizar o ensino superior não significa reduzir acesso nem desvalorizar a inclusão. Significa racionalizar a arquitetura institucional. Significa modular currículos, fortalecer a formação técnica onde ela é mais adequada e concentrar a universidade naquilo que a diferencia: produção científica qualificada e formação de pesquisadores.
O Brasil possui características próprias: dimensão continental, desigualdades regionais profundas e uma única língua nacional. Essas condições impõem desafios, mas também oferecem oportunidades de escala e integração. Uma política de ensino superior precisa dialogar com os arranjos produtivos locais, estimular pesquisa aplicada e reduzir assimetrias regionais.
Outro ponto central é a governança. O excesso de regulamentação não garante qualidade. Muitas vezes, produz burocracia sem impacto real na aprendizagem ou na produção científica. Avaliação precisa estar vinculada a resultados objetivos: desempenho acadêmico consistente, geração de conhecimento relevante e contribuição ao desenvolvimento econômico.
Equidade educacional também não se resume ao acesso. Exige base cognitiva sólida ao longo da trajetória escolar e condições reais para que estudantes ingressem na universidade com preparação adequada. Sem isso, a expansão tende a reproduzir desigualdades.
O debate sobre o ensino superior brasileiro precisa superar a dicotomia entre expansão e corte de gastos. A questão não é quantitativa, mas estratégica. O país precisa decidir se quer uma universidade predominantemente certificadora ou uma universidade estruturada como núcleo de ciência e inovação.
Essa decisão implica escolhas institucionais, diferenciação de funções e foco em resultado. O desafio não é destruir o que foi construído, mas reorganizar com clareza de finalidade.
A universidade pode continuar dispersa ou pode se tornar um dos principais instrumentos de desenvolvimento nacional. O rumo dependerá da capacidade de transformar expansão em estratégia.

