Sistema Nacional de Educação: organizar o país para que a aprendizagem aconteça

Hélio Laranjeira

1/20/20263 min read

O debate sobre educação no Brasil costuma oscilar entre dois extremos igualmente improdutivos: de um lado, a crença de que novas leis resolvem problemas antigos; de outro, a percepção de que nenhuma mudança estrutural é possível sem ruptura total do sistema. Entre esses polos, existe um caminho mais responsável — o da organização institucional com foco em pessoas e resultados.

O Sistema Nacional de Educação (SNE) nasce exatamente nesse espaço de equilíbrio. Ele não surge como negação do que foi construído, tampouco como imposição de um modelo único. Surge como resposta a uma realidade concreta: a fragmentação entre normas, políticas e execução educacional no país.

Hoje, União, Estados e Municípios compartilham responsabilidades educacionais, mas nem sempre compartilham direção, instrumentos ou segurança para agir de forma coordenada. O resultado é conhecido: sobreposição de programas, desperdício de recursos, judicialização excessiva e, sobretudo, dificuldades persistentes em transformar esforço institucional em aprendizagem real.

O SNE propõe algo essencialmente simples, embora institucionalmente complexo: organizar o regime de colaboração já previsto na Constituição. Não se trata de retirar autonomia, mas de dar clareza. Não se trata de centralizar decisões, mas de alinhar responsabilidades. Não se trata de engessar a educação, mas de garantir padrões mínimos que respeitem a diversidade do país.

Nesse contexto, o papel do Conselho Nacional de Educação ganha relevância estratégica. O CNE não executa políticas públicas nem governa redes de ensino. Sua função é técnica e orientadora: oferecer diretrizes, harmonizar interpretações e reduzir a insegurança jurídica que recai, sobretudo, sobre quem está na ponta do sistema. Para gestores públicos, isso não é detalhe — é condição de governabilidade.

Entretanto, é preciso reconhecer um ponto central, muitas vezes tratado de forma superficial no debate público: sistemas organizam, mas não executam. Normas orientam, mas não ensinam. A aprendizagem acontece na prática, na escola, na sala de aula, na experiência concreta do estudante.

É exatamente aqui que reside o principal desafio — e a principal oportunidade — do SNE.

Sem mecanismos de implementação eficientes, flexíveis e integrados, o Sistema Nacional de Educação corre o risco de se tornar apenas uma boa arquitetura institucional, incapaz de produzir os resultados que promete. Organizar o sistema é condição necessária, mas não suficiente.

A experiência brasileira e internacional demonstra que políticas educacionais bem-sucedidas dependem de arranjos capazes de integrar gestão, tecnologia, formação, avaliação, dados e acompanhamento contínuo. Esses arranjos — aqui compreendidos como ecossistemas educacionais — não substituem o Estado, nem competem com a escola. Eles ampliam a capacidade de execução, reduzem custos de transação e aceleram a entrega de aprendizagem.

Trata-se de reconhecer que o Estado, sozinho, não consegue responder com agilidade às demandas educacionais do século XXI. Isso não é uma crítica, mas um dado da realidade administrativa. Incorporar ecossistemas como instrumentos complementares de implementação é, portanto, uma escolha de inteligência institucional, não de ideologia.

Para que isso funcione, algumas salvaguardas são indispensáveis. A autonomia federativa precisa ser preservada. A diversidade pedagógica deve ser reconhecida. A burocracia não pode sufocar a inovação. E a participação de atores não estatais deve ocorrer com transparência, responsabilidade e foco em resultados.

O SNE, quando combinado a ecossistemas de execução bem estruturados, tem potencial para transformar fragmentação em coerência, esforço em impacto e intenção em aprendizagem. Separados, ambos tendem a ser insuficientes: o sistema sem execução perde eficácia; a execução sem sistema perde escala e legitimidade.

No centro desse debate não estão estruturas abstratas, mas pessoas reais. Gestores que precisam decidir com segurança. Educadores que precisam de apoio, não de mais papéis. Estudantes que precisam aprender hoje, não em um futuro indefinido.

A educação brasileira não precisa de mais conflitos. Precisa de convergência. O Sistema Nacional de Educação pode ser esse ponto de encontro — desde que venha acompanhado da coragem institucional de reconhecer que organizar é apenas o primeiro passo. Implementar, com inteligência e cooperação, é o que faz a educação acontecer.