Quem educa nossos filhos quando a atenção vira mercadoria?
Por Hélio Laranjeira
10/14/20265 min read


Quem está educando nossos filhos: os pais ou os algoritmos? A pergunta que dá título ao texto de Eduardo Deschamps, inspirado no livro O Algoritmo das Famílias, de Renata Cafardo, merece entrar nas conversas de casa e nas reuniões escolares. Mas talvez precisemos começar questionando a própria alternativa: a formação de uma criança nunca pertenceu a uma única voz.
Pais, professores, amigos, comunidades, televisão e publicidade sempre influenciaram maneiras de pensar e agir. A novidade das plataformas digitais está na possibilidade de selecionar continuamente aquilo que cada pessoa vê, com base em suas interações. Essa influência merece atenção. Contudo, transformar o debate em uma disputa entre famílias virtuosas e tecnologias perigosas pode dificultar justamente a compreensão de que precisamos.
O algoritmo não precisa substituir os pais para influenciar seus filhos. Basta ocupar, todos os dias, uma parte significativa de sua atenção.
É nesse ponto que o texto de Deschamps apresenta sua contribuição mais forte. Enquanto uma família procura formar alguém capaz de viver com autonomia, uma plataforma pode organizar sua experiência para estimular a permanência e o retorno. Esses objetivos podem se encontrar, quando o jovem descobre uma boa aula, uma expressão artística ou uma comunidade acolhedora. Também podem entrar em conflito.
Não precisamos atribuir intenções humanas ao algoritmo para discutir esse conflito. Precisamos perguntar quais interesses orientam o ambiente em que nossos filhos passam parte da vida.
Entre proteger e preparar
A preocupação das famílias é legítima. Mas o medo, sozinho, oferece poucas ferramentas para educar.
Há uma diferença entre proteger uma criança de uma experiência para a qual ela ainda não está preparada e imaginar que será possível mantê-la indefinidamente distante da vida digital. A proteção precisa considerar a idade, a maturidade, as circunstâncias e os riscos concretos. A preparação exige acompanhamento e oportunidades progressivas de exercer julgamento.
Por isso, concordar que a proibição isolada é insuficiente não significa considerar qualquer limite inadequado. Há momentos em que restringir é necessário. Há outros em que explicar, experimentar junto e combinar regras pode produzir mais compreensão. Essas decisões precisam fazer parte de uma relação educativa, com razões que possam ser conversadas e revistas.
Uma criança pequena e um adolescente próximo da vida adulta não precisam do mesmo grau de autonomia. Tampouco precisam de uma vigilância idêntica. Educar envolve reconhecer essas diferenças.
O desafio é construir uma autonomia que venha acompanhada de responsabilidade. Isso acontece aos poucos, inclusive quando o jovem aprende a identificar uma situação desconfortável e pedir ajuda sem receio de receber apenas uma punição.
A atenção também se educa
A discussão sobre tempo de tela importa, mas fica incompleta quando contamos minutos e ignoramos experiências.
Uma hora pode ser dedicada a criar uma música, conversar com alguém querido, estudar ou percorrer uma sequência de conteúdos sem sequer perceber o que ficou dela. Mesmo uma atividade valiosa precisa encontrar lugar numa rotina que preserve sono, movimento, estudo e convivência.
Portanto, além de perguntar “quanto tempo você ficou no celular?”, precisamos aprender a perguntar: “O que você encontrou ali? Como se sentiu? O que aprendeu? Houve alguma coisa que o incomodou?”.
Essas perguntas permitem conhecer a experiência do filho. Também ajudam a criança ou o adolescente a pensar sobre aquilo que consome, em vez de apenas obedecer a um controle externo.
Há, ainda, uma pergunta que cabe aos adultos: que exemplo oferecemos? É difícil pedir atenção durante uma conversa quando nós mesmos interrompemos o encontro a cada notificação. A autoridade educativa ganha força quando os compromissos são compartilhados. Reservar momentos sem aparelhos pode ser um acordo de toda a família.
A escola precisa participar dessa formação
Uma escola que trabalha apenas com a retirada do aparelho resolve uma parte da organização de seu ambiente. Continua, porém, diante de uma tarefa maior: preparar o estudante para compreender a vida digital que existe fora de seus portões.
Essa formação pode aparecer em atividades concretas. Comparar duas versões de uma notícia. Identificar a intenção de uma publicidade. Discutir por que determinado conteúdo desperta indignação. Compreender como uma recomendação pode ser influenciada pelas interações anteriores. Refletir sobre exposição da intimidade, consentimento e respeito nas relações.
Isso pode ser trabalhado nas disciplinas e nos projetos que a escola já realiza, sem transformar cada problema contemporâneo em uma nova matéria ou em uma compra de tecnologia.
Também precisamos oferecer experiências que tenham valor por si mesmas: esporte, arte, investigação, projetos, conversas e participação na comunidade. A vida fora das telas precisa ser possível e convidativa. Pedir que um jovem abandone o celular, sem lhe oferecer espaços de convivência e pertencimento, deixa uma parte importante do problema sem resposta.
A escola pode contribuir muito nesse campo, mas precisa de condições e de parceria. Não conseguirá compensar, sozinha, todas as ausências da família, da comunidade e das políticas públicas.
A responsabilidade não termina na família
Uma leitura crítica do tema exige cuidado com a tendência de colocar todo o peso sobre os pais.
Há famílias com jornadas extensas de trabalho, pouco apoio e acesso limitado a espaços seguros de lazer. Há responsáveis que não conhecem bem os recursos digitais. Há crianças para quem a internet também representa acesso a oportunidades que faltam no território onde vivem.
Presença e diálogo são essenciais, mas não podem ser apresentados como uma receita que todas as famílias conseguem executar nas mesmas condições.
As empresas que organizam esses ambientes também precisam responder pelas escolhas que fazem. Cabe discutir a proteção incorporada aos produtos, a clareza das configurações, os canais de ajuda e as condições de exposição de crianças e adolescentes. A educação dos usuários é necessária; ela não dispensa a responsabilidade de quem oferece e administra o serviço.
Da mesma forma, as políticas públicas precisam ampliar as condições para uma infância e uma adolescência com convivência, cultura, esporte e aprendizagem. A proteção digital faz parte de uma proteção mais ampla.
Abrir o debate, sem simplificar a infância
O mérito da reflexão apresentada por Deschamps está em chamar as famílias a perceber uma influência que pode passar despercebida. O cuidado que proponho é evitar que essa percepção se transforme em condenação geral da tecnologia ou em culpa individual dos pais.
Crianças e adolescentes não são apenas receptores passivos. Eles interpretam, criam, questionam e constroem relações. Precisam ser ouvidos na elaboração dos acordos que afetam sua vida, dentro das possibilidades de cada idade. Escutá-los ajuda os adultos a compreender o problema e torna a orientação mais próxima de sua realidade.
Podemos abrir o debate com perguntas concretas: o que os filhos encontram nas plataformas? Que necessidades procuram atender ali? Quais limites fazem sentido? Como a escola pode ajudar? O que deve ser exigido das empresas? Que oportunidades de convivência estamos oferecendo?
Educar para a vida digital é ajudar nossos filhos a perceber quando uma escolha é deles e quando está sendo conduzida por interesses que ainda não compreendem.
Essa tarefa exige limites, conhecimento e confiança. Exige também adultos dispostos a aprender e instituições dispostas a assumir sua parte.
Os algoritmos já participam do cotidiano. A questão é que lugar terão na formação de nossos filhos — e como construiremos, com eles, a capacidade de escolher, conviver e pensar com autonomia.

