PAULO FREIRE, A IA E O CELULAR PROIBIDO
O aluno já chegou ao futuro. A escola ainda não.
Por Hélio Laranjeira
9/8/20266 min read


Imagine uma cena:
Paulo Freire entra hoje em 2026 numa sala de aula brasileira.
Olha para os estudantes. Quase todos conectados. Celular no bolso.
Inteligência artificial disponível. ChatGPT. Gemini. Copilot. Vídeos.Buscadores.
Bibliotecas inteiras acessíveis em segundos.
E aí alguém avisa:
— Professor Paulo… o celular é proibido.
Ele provavelmente perguntaria:
— Proibido por quê?
— Porque distrai os alunos.
E ele responderia:
— Entendi.
— E o que vocês colocaram no lugar?
Silêncio.
É aí que começa o problema.
Antes que alguém fique indignado comigo… eu não estou dizendo que sei o que Paulo Freire pensaria sobre inteligência artificial.
Ele morreu em 1997.
ChatGPT não existia.
Inteligência artificial generativa não fazia parte da vida cotidiana.
Portanto, seria intelectualmente desonesto colocar palavras na boca dele.
Mas podemos fazer uma provocação.
Porque Paulo Freire passou boa parte da vida criticando uma educação em que o aluno era tratado como recipiente.
O professor falava.
O aluno recebia.
O professor depositava conhecimento.
O aluno memorizava.
Ele chamou isso de educação bancária.
Pois bem.
Quase trinta anos depois de sua morte…
aconteceu uma coisa extraordinária.
O banco perdeu o monopólio.
A informação escapou da sala de aula.
Foi parar no Google.
Depois no YouTube.
Depois nas plataformas.
E agora… está numa inteligência artificial que cabe dentro do bolso do aluno.
E aqui começa a nossa ironia.
Talvez nunca tenhamos tido uma geração com tanto acesso à informação…
e continuamos discutindo educação como se informação fosse escassa.
Os números do Pisa 2025 são impressionantes.
Quase metade dos estudantes brasileiros de 15 anos, 48% do total, já utiliza chatbots de inteligência artificial pelo menos uma vez por semana para aprender.
Na média da OCDE, são 46%.
Quando a pergunta é sobre usar IA para fazer uma pesquisa inicial sobre um assunto novo. O Brasil chega a 40%.
A média da OCDE é 31%. Ou seja, em algumas formas de utilização da inteligência artificial, o aluno brasileiro não está atrasado.
Ele está lá. Ele experimentou. Ele descobriu. Ele está usando.
Talvez antes da escola. Talvez antes do professor. Talvez antes da secretaria de Educação.
E certamente antes de muita regulamentação.
A tecnologia chegou. O aluno chegou.
A pergunta é: a pedagogia chegou?
Porque aí está o paradoxo brasileiro.
Temos uma geração que rapidamente incorpora inteligência artificial, mas apenas 28% dos estudantes brasileiros atingem pelo menos o nível básico de proficiência em matemática.
Em leitura, 49%. Em ciências 48%. (OCDE)
Então pense comigo: o adolescente brasileiro tem acesso a uma tecnologia capaz de explicar cálculo, traduzir textos, criar exercícios, simular diálogos, produzir exemplos, comparar argumentos, explicar um mesmo assunto de dez maneiras diferente, mas sete em cada dez estudantes ainda não atingem o nível básico esperado em matemática.
Tem alguma coisa errada aí.
E não é necessariamente com a tecnologia. É com a nossa capacidade de transformar tecnologia em pedagogia. Talvez Paulo Freire olhasse para essa cena e, na nossa sátira, perguntasse:
— Quer dizer que vocês entregaram ao estudante acesso instantâneo a quase todo o conhecimento humano?
— Sim.
— Uma ferramenta que conversa com ele?
— Sim.
— Que pode explicar de novo se ele não entender?
— Sim.
— Que pode adaptar uma explicação?
— Sim.
— Que pode criar exercícios?
— Sim.
— Que pode funcionar como apoio ao professor?
— Sim.
— E o que vocês fizeram?
— Proibimos o celular.
Eu imagino aquele silêncio.
Depois talvez viesse a pergunta:
— Vocês estão com medo do celular…
ou estão com medo de mudar a aula?
Essa é a discussão.
Não estou defendendo celular liberado indiscriminadamente.
Muito pelo contrário.
Distração existe.
Dependência existe.
Uso inadequado existe.
E o próprio Pisa mostra que estudantes expostos à distração digital tendem a apresentar resultados piores.
A OCDE encontrou também menor relato de distração em escolas que restringem celulares.
Portanto, a resposta não pode ser: “Liberem todos os celulares e cada um faça o que quiser.”
Isso seria substituir pedagogia por caos. Mas existe uma diferença gigantesca entre: celular como distração e celular como instrumento pedagógico.
Uma coisa é o estudante assistir a vídeos durante uma explicação.
Outra coisa é o professor dizer:
— Abram o celular.
— Perguntem à inteligência artificial por que o céu é azul.
— Agora comparem as respostas.
— Procurem duas fontes científicas.
— Descubram onde a IA simplificou demais.
— Onde ela errou.
— Onde ela acertou.
— E defendam a conclusão de vocês.
Percebeu?
A mesma ferramenta. Mas agora quem trabalha intelectualmente é o aluno.
Outro exemplo: Matemática.
O aluno apresenta um problema à IA. A IA oferece uma solução. O professor diz:
— Não quero saber a resposta.
— Quero que vocês descubram se o raciocínio está correto.
Mudou tudo. Agora a IA não substitui pensamento. Ela provoca pensamento. Português. A inteligência artificial produz um texto. O estudante precisa identificar: argumento, evidência, falácia, contradição, fonte confiável, fonte duvidosa e informação inventada.
Isso é alfabetização para o século XXI.
História. O professor pede:
— Perguntem à IA sobre determinado acontecimento histórico.
Depois:
— Agora pesquisem documentos e fontes.
— Identifiquem o que ficou de fora.
— Qual perspectiva foi privilegiada?
— Qual perspectiva desapareceu?
Isso é pensamento crítico.
Ciências. A IA propõe uma hipótese. O estudante precisa testar. Concordar. Refutar. Argumentar. Demonstrar. Nesse momento, a tecnologia deixa de ser uma máquina de respostas.
E se transforma em uma máquina de perguntas. E talvez aí esteja uma das maiores oportunidades educacionais desta geração. Porque o grande risco da inteligência artificial na escola não é o aluno usar IA.
É o aluno usar IA para não pensar. Se a máquina lê por ele, resume por ele, escreve por ele, calcula por ele, argumenta por ele, pesquisa por ele e conclui por ele, então criamos um paradoxo extraordinário: quanto mais inteligente fica a máquina, menos esforço intelectual exigimos do estudante.
Isso seria uma tragédia pedagógica.
E aqui nossa sátira encontra novamente Paulo Freire.
Imagine explicar para ele:
— Professor, agora existe uma máquina capaz de responder praticamente qualquer pergunta.
Talvez ele perguntasse:
— Excelente.
— Então finalmente vocês pararam de ensinar apenas respostas…
e começaram a ensinar os estudantes a fazer perguntas?
Silêncio novamente.
Porque talvez estejamos utilizando a ferramenta mais poderosa da história da educação…
para fazer trabalhos escolares mais rapidamente.
Que desperdício!
Nós ganhamos uma máquina capaz de dialogar e estamos usando para copiar.
Ganhamos uma ferramenta capaz de personalizar explicações e estamos usando para resumir apostilas.
Ganhamos capacidade de oferecer tutoria praticamente individual e estamos discutindo apenas se o aluno pode ou não levar o celular para a sala.
Esse é o tamanho da oportunidade perdida.
O Pisa trouxe ainda outro dado interessante.
Em 2025, 81% dos estudantes brasileiros estavam em escolas cujos diretores informaram que celulares não eram permitidos nas dependências.
Na média da OCDE são 49%.
A proibição pode ajudar a enfrentar distrações. Isso precisa ser reconhecido. Mas ela resolve apenas metade do problema.
A pergunta seguinte precisa ser: e quando a tecnologia for pedagogicamente útil? Porque não podemos confundir controle de distração com rejeição da tecnologia.
O celular não precisa mandar na sala de aula. O professor precisa mandar no propósito pedagógico. A tecnologia entra quando produz aprendizagem. Sai quando produz distração.
É tão simples — e tão complexo — quanto isso.
E talvez precisemos mudar inclusive a formação dos professores.
Porque não adianta entregar inteligência artificial ao professor e ensinar apenas: “aqui está um prompt”.
Professor não precisa apenas aprender prompt. Precisa aprender arquitetura pedagógica com IA.
Quando usar? Quando não usar? Que atividade cognitiva queremos desenvolver? O aluno está analisando? Criando? Comparando? Argumentando? Investigando? Ou simplesmente terceirizando o pensamento?
Essa deveria ser a régua.
Porque existe uma grande diferença entre: usar inteligência artificial para obter uma resposta e
usar inteligência artificial para aprender a pensar. E aqui está, para mim, a grande mensagem.
O problema não é mais colocar inteligência artificial dentro da escola.
Os alunos já fizeram isso. Eles já chegaram. A IA já está no bolso. Já está na pesquisa. Já está no dever de casa. Já está nos textos. Já está nas perguntas.
O verdadeiro desafio agora é outro: colocar aprendizagem dentro do uso da inteligência artificial.
Transformar tecnologia em pedagogia. Transformar celular em instrumento. Transformar informação em conhecimento. Transformar resposta em pergunta. Transformar IA em amplificadora da inteligência humana e não em substituta dela.
Talvez Paulo Freire se pudesse visitar uma escola brasileira hoje não ficasse assustado com a inteligência artificial.
Na nossa sátira talvez ficasse indignado com outra coisa: com a possibilidade de termos colocado nas mãos dos estudantes uma ferramenta extraordinária para promover autonomia e usá-la apenas para reproduzir uma velha pedagogia.
O aluno mudou. A tecnologia mudou. O mundo mudou. Agora falta uma coisa: mudar a experiência de aprender.
Porque o futuro já entrou na sala de aula.
Às vezes escondido no bolso.
Talvez esteja na hora de parar de perguntar apenas:
“Como tiramos esse celular daqui?”
E começar a perguntar:
“Como fazemos esse celular ajudar alguém a aprender?”
Essa é a pergunta. Esse é o desafio. E, mais uma vez, a educação brasileira chega àquela palavra que eu considero cada vez mais importante:
COMO?

