O IDEB melhorou. Mas o aluno aprendeu mais?
Por Hélio Laranjeira
9/24/20264 min read


O Brasil se acostumou a resumir a educação em um número. Sai o IDEB e imediatamente começam as comparações: quem avançou, quem caiu, qual estado melhorou, qual rede ficou para trás. Quando o índice sobe, comemora-se. Quando cai, começa a procura por explicações e culpados.
Mas há uma pergunta que quase sempre fica em segundo plano: se o IDEB melhorou, o aluno aprendeu mais?
A resposta não é tão simples.
O IDEB reúne duas coisas diferentes: o desempenho dos estudantes no Saeb e o fluxo escolar, especialmente as taxas de aprovação. A lógica que deu origem a essa combinação faz sentido. Não seria razoável considerar excelente uma rede que obtivesse boas notas às custas de muita reprovação. Da mesma forma, aprovar todo mundo sem que os alunos aprendam também não pode ser chamado de qualidade.
Até aí, nenhum problema.
A dificuldade começa quando passamos a tratar o resultado dessa conta como se fosse, por si só, a medida da aprendizagem.
Imagine uma situação bastante simples. Os alunos de determinada rede apresentam uma pequena queda no desempenho do Saeb. Ao mesmo tempo, a taxa de aprovação cresce bastante. Dependendo da combinação dos dois fatores, o IDEB pode subir.
A matemática não está errada. O problema pode estar na conclusão que tiramos dela.
Se a proficiência caiu, não podemos afirmar automaticamente que os alunos aprenderam mais apenas porque o IDEB aumentou. Ainda assim, é comum vermos o crescimento do índice ser apresentado como crescimento da aprendizagem.
É aí que podemos produzir uma espécie de falso positivo educacional: a estatística melhora, a manchete é boa, a posição no ranking sobe, mas aquilo que realmente deveria estar no centro da discussão — o que o estudante sabe e consegue fazer — pode não ter melhorado na mesma proporção.
Isso não significa negar a importância histórica do IDEB. Ao contrário. O indicador ajudou o Brasil a criar uma cultura de avaliação e estabeleceu parâmetros nacionais importantes. O que precisamos discutir agora é se um instrumento criado para determinada realidade continua sendo suficiente para responder às perguntas que a educação brasileira passou a exigir.
Talvez este seja o momento de separar melhor as coisas.
Aprendizagem é uma dimensão. Fluxo escolar é outra. Equidade é uma terceira. Todas são importantes, mas não são a mesma coisa.
Quando falamos de aprendizagem, deveríamos conseguir responder, com clareza: o aluno lê e compreende? Domina os conhecimentos matemáticos esperados? Consegue aplicar aquilo que aprendeu? Quantos estão abaixo do básico? Quantos chegaram ao adequado? E, talvez ainda mais importante, quanto cada estudante avançou em relação ao ponto de partida?
O fluxo escolar precisa responder outras perguntas: quantos foram promovidos, quantos repetiram, quantos abandonaram a escola e quantos conseguiram concluir a etapa no tempo esperado.
Já a equidade nos obriga a olhar para dentro das médias.
Duas redes podem apresentar desempenho médio muito parecido e, mesmo assim, viver realidades completamente diferentes. Em uma delas, grande parte dos estudantes pode estar concentrada próxima do nível adequado. Na outra, uma parcela alcança resultados muito altos enquanto um contingente enorme permanece nos níveis mais baixos.
A média pode ser praticamente a mesma.
A realidade educacional, certamente não.
Talvez aí esteja um dos maiores desafios dos nossos indicadores: deixar de olhar apenas para a média e começar a enxergar a distribuição da aprendizagem.
Precisamos também dar mais atenção ao chamado valor agregado. Não basta saber onde o aluno chegou. É preciso conhecer de onde ele partiu.
Uma escola que recebe estudantes com enormes defasagens e consegue fazê-los avançar significativamente pode estar realizando um trabalho educacional excepcional, mesmo que sua média final permaneça abaixo da de uma escola que atende alunos que já chegaram em melhores condições de aprendizagem.
Reconhecer isso não significa baixar expectativas para ninguém. Significa apenas medir melhor.
Por isso, talvez não precisemos substituir o IDEB por outro índice único, outra nota capaz de resumir toda a educação brasileira. Podemos avançar para algo mais inteligente: um conjunto de indicadores que permita enxergar separadamente aprendizagem, evolução, equidade e permanência.
Assim, quando uma rede melhorar a aprovação, saberemos que o fluxo melhorou. Quando os estudantes dominarem mais competências, poderemos afirmar que houve avanço de aprendizagem. Quando diminuir a distância entre grupos, teremos ganho de equidade. E quando os mesmos alunos forem acompanhados ao longo do tempo, poderemos identificar o quanto a escola efetivamente contribuiu para seu desenvolvimento.
Há ainda um novo elemento nessa discussão que não pode mais ser ignorado.
A inteligência artificial entrou na escola.
Hoje um estudante pode produzir em segundos um texto, resolver um exercício, responder a uma questão ou apresentar um trabalho com auxílio de ferramentas que não existiam quando grande parte dos nossos modelos de avaliação foi concebida.
Isso muda muita coisa.
Cada vez mais, teremos de distinguir uma resposta correta de uma aprendizagem verdadeira.
Saber se o aluno recebeu a resposta será menos importante do que verificar se ele compreendeu, se consegue explicar, argumentar, transferir aquele conhecimento para outro problema e demonstrar que efetivamente aprendeu.
É o que tenho chamado de aprendizagem verificável.
Talvez a grande transformação da avaliação educacional brasileira esteja justamente aí: sair de uma lógica que contabiliza predominantemente resultados e caminhar para outra capaz de verificar aprendizagem, evolução e equidade.
O IDEB cumpriu — e continua cumprindo — uma função importante. Mas nenhum indicador deve se tornar intocável.
Se queremos melhorar a educação, precisamos também melhorar a maneira como a medimos.
No fim, talvez a pergunta mais importante nem seja qual estado obteve o maior IDEB.
A pergunta que deveria orientar gestores, professores, famílias e a própria política pública é muito mais simples:
Nossos alunos estão, de fato, aprendendo mais?
Quando conseguirmos responder a isso com segurança, olhando não apenas para médias, mas para cada trajetória de aprendizagem, teremos dado um passo importante.
Não apenas para medir melhor a educação brasileira.
Mas para começar a enxergá-la como ela realmente é.

