O egoísmo que nos paralisa — e a educação que ainda pode nos salvar

Hélio Laranjeira

1/5/20263 min read

O mundo não está parado por falta de soluções. Está paralisado por excesso de egoísmo.

Essa é uma constatação desconfortável, mas necessária. Em praticamente todos os setores da vida social — da política à economia, da educação à saúde — os conflitos se multiplicam, as disputas se radicalizam e os consensos desaparecem. Não porque faltem diagnósticos, dados ou propostas, mas porque cada um insiste em fazer apenas o que lhe convém, mesmo quando o custo coletivo é evidente.

Platão já alertava, há mais de dois mil anos, que liderança não é um cargo, mas uma condição moral. Não basta querer liderar; é preciso ser capaz de colocar o coletivo acima do próprio ego. O egoísmo, por definição, impede esse movimento. Não por falta de ambição, mas por excesso de centralidade em si mesmo. Onde o “eu” ocupa todo o espaço, o “nós” não consegue existir.

Nos últimos anos, o egoísmo deixou de ser um traço individual para se tornar método social. Ele atravessa a educação, onde aprender virou competir e cooperar passou a ser visto como fraqueza. Contamina a economia, onde ganhar mais importa mais do que gerar valor social. Endurece a política, transformando divergências legítimas em guerras permanentes. E desumaniza a saúde, quando a vida passa a ser tratada como custo, estatística ou variável de ajuste.

O resultado é visível: problemas se acumulam, reformas emperram, soluções não saem do papel. Discute-se muito, avança-se pouco. Nada prospera quando o “eu” grita mais alto que o “nós”.

O aspecto mais perverso desse processo é que o egoísmo moderno se sofisticou. Ele já não se reconhece como egoísmo. Disfarça-se de mérito, eficiência, sucesso ou vitória. Quem age assim não se vê como parte do problema — pelo contrário, sente-se vencedor. E quando o egoísmo atinge esse nível, desaparecem o remorso, a empatia e a responsabilidade. O outro deixa de ser pessoa e passa a ser obstáculo, meio ou inimigo.

É por isso que os conflitos atuais são tão estéreis. No Brasil, vivemos um tempo simbólico de vitórias e derrotas simultâneas, de “nós contra eles”, de celebrações vazias e ressentimentos profundos. No cenário internacional, disputas são vendidas como embates ideológicos, mas movidas, no fundo, por interesses egoístas. Até as guerras — inclusive as guerras econômicas, de narrativas e de poder — nascem do mesmo impulso: maximizar ganhos próprios, ainda que o custo coletivo seja devastador.

O egoísmo funciona como uma erva daninha. Cresce silenciosamente, ocupa todos os espaços e sufoca aquilo que poderia florescer. Combatê-lo exige mais do que discursos bem-intencionados ou apelos morais genéricos. Exige formação de caráter, consciência ética e limites claros, pessoais e institucionais.

E aqui surge uma verdade incômoda: nenhuma sociedade avança quando todos querem ser especialistas em tudo e responsáveis por nada. Liderar não é vencer o outro, mas criar condições para que o coletivo funcione melhor. O egoísmo impede isso porque transforma cooperação em ameaça e diálogo em perda.

Nesse cenário, a educação deixa de ser um tema secundário e passa a ser a principal aposta civilizatória. Não a educação como acúmulo de conteúdos ou disputa por rankings, mas como formação humana. Uma educação que ensine a cooperar, a ceder, a compreender o impacto das próprias escolhas. Que forme pessoas antes de formar currículos. Que mostre, na prática, que fazer mais com menos só é possível quando se compartilha propósito.

O egoísmo pode até ser parte da condição humana, mas ele não precisa ser soberano. Pode ser regulado, civilizado e transformado. E isso não se faz por decreto, nem por força. Faz-se por cultura, por exemplo e por aprendizagem contínua.

Contribuir com o futuro, hoje, é ajudar a deslocar o centro do “eu” para o “nós” sem perder identidade, mas ganhando sentido. É lembrar que liderança não é esmagar o outro, mas caminhar junto. E é apostar que, entre todas as soluções possíveis, a educação — bem feita, acessível e conectada à realidade — ainda é o caminho mais potente para reconciliar o ser humano consigo mesmo.

Talvez não resolva tudo.

Mas pode ser o começo de quase tudo.