O Brasil mede errado a qualidade dos cursos de formação de professores

Hélio Laranjeira

3/6/20263 min read

A cada ciclo de avaliação da educação superior, o Brasil volta a olhar para um dos indicadores mais conhecidos do sistema educacional: o resultado do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade).

A prova cumpre um papel importante.

Ela produz dados nacionais comparáveis, ajuda a identificar tendências e permite que o país tenha uma referência objetiva sobre parte do desempenho acadêmico dos estudantes.

Mas quando o assunto é a formação de professores, surge uma pergunta inevitável:

Será que estamos medindo a coisa certa?

Recentemente, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) publicou a Portaria nº 90/2026, que regulamenta o cálculo do Conceito Enade para os cursos de licenciatura.

Do ponto de vista administrativo, trata-se de uma norma técnica.

Ela organiza o processo de cálculo do indicador, estabelece prazos de verificação para as instituições e define o cronograma de divulgação dos resultados.

Nada de extraordinário.

Mas o que essa portaria revela sobre o sistema educacional brasileiro é muito mais profundo.

Ela mostra que, ainda hoje, o principal termômetro da qualidade da formação docente no país continua sendo o desempenho dos estudantes em uma prova padronizada.

E aí está o problema.

A formação de professores não cabe dentro de uma prova

Ensinar é uma atividade complexa.

Um bom professor precisa dominar conteúdo, mas também precisa desenvolver algo que nenhuma prova consegue medir plenamente:

  • capacidade de comunicação

  • sensibilidade pedagógica

  • leitura da realidade da sala de aula

  • gestão de aprendizagem em contextos diversos

  • mediação entre conhecimento e realidade social

Grande parte dessas competências se desenvolve na prática.

Nos estágios.

Na convivência com escolas.

Na interação com estudantes reais.

No entanto, quando avaliamos a qualidade das licenciaturas no Brasil, continuamos privilegiando aquilo que é mais fácil de medir: o desempenho em um exame teórico.

É como tentar avaliar um médico apenas pela prova da faculdade, sem observar sua atuação no hospital.

Ou avaliar um piloto apenas pela prova escrita, sem olhar sua capacidade no cockpit.

O risco de medir apenas o que é simples

Sistemas de avaliação são essenciais para qualquer política pública.

O problema não está em medir.

O problema surge quando o indicador passa a simplificar demais aquilo que ele pretende representar.

Quando isso acontece, duas distorções aparecem.

A primeira é pedagógica.

Cursos passam a orientar parte de suas estratégias formativas para melhorar indicadores, e não necessariamente para melhorar a formação real dos futuros professores.

A segunda é política.

A sociedade passa a interpretar a qualidade da formação docente a partir de um único número.

Um indicador que, embora relevante, representa apenas uma fração da realidade.

O mundo já está indo além

Diversos sistemas educacionais já perceberam esse limite.

Avaliações contemporâneas de formação docente incorporam elementos como:

  • análise de portfólios pedagógicos

  • avaliação da prática de ensino

  • acompanhamento de estágios supervisionados

  • inserção profissional de egressos

  • impacto da formação na aprendizagem dos estudantes

Esses elementos ampliam a capacidade de compreender o que realmente acontece na formação de professores.

Eles não substituem provas.

Mas complementam aquilo que as provas não conseguem enxergar.

O Brasil precisa evoluir no debate

O sistema brasileiro de avaliação da educação superior, estruturado pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), foi um avanço importante quando foi criado.

Ele trouxe indicadores nacionais, ampliou a transparência e fortaleceu o acompanhamento da qualidade dos cursos.

Mas, duas décadas depois, o país já acumulou maturidade suficiente para dar um passo além.

Especialmente quando se trata da formação de professores.

Se queremos melhorar a educação básica brasileira, precisamos começar pela pergunta mais fundamental:

Como estamos avaliando quem forma os professores do país?

Medir bem é uma das condições para melhorar.

Mas medir bem exige instrumentos que consigam enxergar a complexidade daquilo que está sendo avaliado.

Formar professores é uma das tarefas mais estratégicas de qualquer sociedade.

Talvez esteja na hora de construirmos um sistema de avaliação capaz de olhar para essa missão com a profundidade que ela merece.