O BRASIL JÁ SABE O QUE PRECISA FAZER. FALTA RESPONDER: COMO?

De projetos nacionais não faltam diagnósticos. O desafio agora é transformar educação, ciência, tecnologia e desenvolvimento em capacidade real de execução.

Por Hélio Laranjeira

9/15/20265 min read

Há poucos dias, o IVEPESP — Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo — apresentou um manifesto propondo dez compromissos para o Brasil até 2035.

O documento merece atenção.

Fala de educação básica, valorização dos professores, educação profissional, ciência, tecnologia, inovação, produtividade, competitividade, responsabilidade fiscal e fortalecimento das instituições.

É difícil discordar dessas prioridades.

Na verdade, talvez esteja exatamente aí uma das questões centrais do Brasil.

Nós já sabemos, em grande medida, o que precisa ser feito.

Sabemos que nossas crianças precisam aprender mais.

Sabemos que professores precisam ser valorizados.

Sabemos que o ensino médio precisa conversar mais com a vida e com o trabalho.

Sabemos que o Brasil precisa formar mais técnicos, tecnólogos, engenheiros, cientistas e profissionais preparados para uma economia cada vez mais tecnológica.

Sabemos que precisamos investir em ciência.

Sabemos que inteligência artificial vai modificar profundamente a escola, as empresas, os empregos e a própria organização da sociedade.

Sabemos que precisamos aumentar produtividade.

Sabemos que o Estado precisa gastar melhor.

Sabemos que empresas precisam encontrar um ambiente mais favorável para produzir, inovar e gerar empregos.

Há diagnósticos. Há estudos. Há pesquisas. Há planos. Há programas. Há especialistas. Há instituições sérias pensando o Brasil.

Então talvez esteja chegando a hora de acrescentarmos uma décima primeira pergunta aos dez compromissos apresentados pelo IVEPESP: COMO?

Como transformar boas intenções em políticas que realmente funcionem?

Como fazer uma política nacional chegar a uma pequena cidade do interior?

Como garantir que uma criança alfabetizada no papel esteja, de fato, sabendo ler?

Como assegurar que permanecer mais tempo na escola represente aprender mais?

Como fazer a inteligência artificial deixar de ser apenas uma ferramenta usada pelos estudantes para se transformar em instrumento de aprendizagem?

Como conectar a formação profissional às oportunidades reais de trabalho?

Como levar educação técnica para milhões de jovens sem precisar construir uma nova escola em cada esquina?

Como aproveitar escolas públicas e privadas, institutos federais, universidades, Sistema S, empresas, plataformas tecnológicas e toda a capacidade instalada que o país já possui?

Como fazer tudo isso sem imaginar que haverá dinheiro ilimitado?

É aí que começa, talvez, a discussão mais importante.

Política pública só existe de verdade quando chega ao chão.

Antes disso, ela é lei. É decreto. É portaria. É orçamento. É anúncio. É programa. Pode ser tudo isso.

Mas só se transforma em política pública efetiva quando muda a vida de alguém.

Quando a criança aprende.

Quando o jovem conclui sua formação.

Quando o trabalhador consegue uma nova profissão.

Quando a empresa encontra mão de obra qualificada.

Quando o professor consegue ensinar melhor.

Quando uma família percebe que a escola está abrindo oportunidades que antes não existiam.

É isso que precisamos medir.

Durante muito tempo, o Brasil se acostumou a medir educação principalmente pela quantidade.

Quantas escolas? Quantas matrículas? Quantos alunos? Quantas vagas? Quantos recursos foram destinados?

Tudo isso é importante.

Mas existe outra pergunta que precisa aparecer com muito mais força: Qual foi o resultado?

O aluno aprendeu? O jovem conseguiu trabalhar? A formação melhorou sua renda? A empresa encontrou profissionais preparados? A tecnologia aumentou a aprendizagem? O recurso público produziu o impacto esperado?

É preciso mudar lentamente a cultura da política pública brasileira.

Sair apenas da lógica do gasto e entrar também na lógica do resultado.

Isso vale particularmente para a educação profissional.

O Brasil fala, corretamente, sobre a necessidade de formar milhões de técnicos.

Mas não podemos simplesmente multiplicar cursos e certificados.

Precisamos perguntar onde estão as oportunidades de trabalho, quais competências serão necessárias nos próximos anos, quais setores estão crescendo, quais economias regionais precisam de profissionais e como acompanhar quem foi formado.

Formar por formar é produzir estatística.

Formar conectado à oportunidade é política de desenvolvimento.

O mesmo raciocínio vale para a inteligência artificial.

A discussão não deveria ser simplesmente se ela entra ou não entra na escola.

Ela já entrou.

Está no telefone do aluno. Está no computador. Está nas empresas. Está no mercado de trabalho.

A pergunta agora é outra: como colocar aprendizagem dentro da inteligência artificial?

Como ajudar professores a utilizá-la?

Como desenvolver capacidade crítica nos estudantes?

Como avaliar aprendizagem em um mundo no qual uma máquina consegue produzir textos, imagens, vídeos, programas de computador e respostas em segundos?

Não resolveremos essas questões proibindo o futuro.

Precisamos aprender a governá-lo.

Também precisamos abandonar a ideia de que todo novo problema exige uma nova estrutura.

O Brasil já possui uma gigantesca infraestrutura educacional.

Temos escolas públicas.

Escolas privadas.

Institutos federais.

Universidades.

Sistema S.

Centros tecnológicos.

Empresas.

Plataformas digitais.

Professores.

Estúdios.

Laboratórios.

Conteúdo.

Tecnologia.

Talvez uma das grandes revoluções da política pública brasileira seja aprender a fazer mais com aquilo que já temos.

Articular capacidades.

Compartilhar infraestrutura.

Criar redes.

Usar tecnologia.

Estabelecer parcerias.

Integrar setor público e setor privado quando houver interesse público claramente definido.

Não precisamos necessariamente construir tudo de novo.

Precisamos fazer o que já existe funcionar de maneira coordenada.

Esse talvez seja um dos maiores desperdícios brasileiros: temos inúmeras instituições fazendo coisas boas, mas frequentemente cada uma trabalha sozinha.

A universidade pesquisa.

A empresa procura profissionais.

A escola forma.

O governo cria programas.

O município procura soluções.

O jovem procura emprego.

E muitas vezes essas pontas não se encontram.

Precisamos construir as pontes.

Por isso, acredito que a próxima grande discussão sobre o futuro brasileiro não deveria ser apenas sobre o que fazer.

Essa etapa está razoavelmente amadurecida.

Precisamos discutir arquitetura de execução.

Quem faz? Quem paga? Quem participa?

Como chega? Como escala? Como avaliamos?

Quem responde pelo resultado?

E, talvez a pergunta mais importante: como sabemos se a vida das pessoas melhorou?

Essa discussão precisa ultrapassar direita, esquerda, governo e oposição.

Uma criança que não aprende matemática não pergunta qual partido criou o programa educacional.

O trabalhador desempregado não pergunta qual ideologia formulou o curso profissionalizante.

O empresário que não encontra profissionais qualificados não resolve o problema discutindo polarização.

Eles querem solução.

O cidadão comum também.

É desse lugar que precisamos voltar a discutir o Brasil.

Menos pela disputa sobre quem apresentou a ideia.

Mais pela capacidade de fazê-la funcionar.

Menos anúncios.

Mais entrega.

Menos programas que terminam junto com governos.

Mais políticas que sobrevivem às eleições.

Menos discussão sobre intenções.

Mais avaliação de resultados.

O manifesto do IVEPESP traz uma contribuição importante ao organizar dez compromissos para o Brasil de 2035.

Eu acrescentaria apenas uma pergunta.

Talvez a mais simples.

E, justamente por isso, a mais difícil:

COMO?

Porque o futuro não será construído pelos melhores discursos.

Será construído pelas ideias que conseguirmos transformar em realidade.

E, no final das contas, é no chão da escola, na vida do trabalhador, dentro das empresas, nas cidades e na casa das famílias que saberemos se o Brasil realmente mudou.

Não perca nada!

hlpensandoforadacaixa@gmail.com