NOVOS PROGRAMAS, VELHA ARQUITETURA

O Brasil quer reindustrializar, inovar, incorporar inteligência artificial, aumentar a produtividade e competir na economia do conhecimento.

Por Hélio Laranjeira

9/8/20264 min read

O Brasil acaba de receber uma notícia educacional que, à primeira vista, parece não ser exatamente uma notícia.

Continuamos praticamente no mesmo lugar.

Os resultados do PISA 2025, divulgados pela OCDE, mostram que o desempenho dos estudantes brasileiros em matemática, leitura e ciências permaneceu praticamente estável em relação a 2022.

O problema é que essa estabilidade não começou agora.

Segundo a própria OCDE, o desempenho brasileiro permanece próximo do mesmo patamar observado desde 2015.

Em educação, ficar parado durante uma década não é estabilidade.

É uma emergência silenciosa.

O Brasil obteve 409 pontos em ciências, 408 em leitura e apenas 377 em matemática. As médias da OCDE foram de 482, 461 e 463 pontos, respectivamente. Na nova avaliação de resolução de problemas utilizando ferramentas computacionais — talvez uma das competências mais importantes para o mundo que estamos construindo —, o Brasil marcou 406 pontos, diante de uma média de 500 da OCDE.

Mas nem esses números revelam a parte mais preocupante.

Em matemática, somente 28% dos adolescentes brasileiros atingem pelo menos o nível básico de proficiência. Significa dizer, pela outra ponta, que aproximadamente sete em cada dez não chegam a esse patamar.

Em ciências, somente 48% alcançam o nível básico. Em leitura, 49%.

E praticamente nenhum estudante brasileiro chega aos níveis mais altos de desempenho em matemática.

É difícil compatibilizar esses números com o país que diz querer construir.

Queremos reindustrialização.

Queremos inteligência artificial.

Queremos produtividade.

Queremos inovação.

Queremos milhões de novos técnicos.

Queremos empregos de maior valor agregado.

Queremos competir na economia do conhecimento.

Mas nenhuma dessas ambições começa numa fábrica, num laboratório ou numa plataforma de inteligência artificial.

Começa numa criança aprendendo a ler, interpretar, calcular, raciocinar e resolver problemas.

É importante, entretanto, não cometer uma injustiça.

A educação brasileira avançou.

O Ideb de 2025 alcançou os melhores resultados de sua série histórica. Houve melhora nos anos iniciais e finais do ensino fundamental e também no ensino médio. O Saeb igualmente registrou avanços recentes em língua portuguesa e matemática.

Colocamos mais crianças na escola, reduzimos problemas de fluxo, ampliamos políticas de permanência e construímos uma das maiores estruturas de avaliação educacional do mundo.

Portanto, a conclusão não pode ser simplesmente que “nada funciona”.

A conclusão talvez seja mais incômoda.

O que estamos fazendo não está produzindo transformação na velocidade e na escala de que o país necessita.

E talvez isso aconteça porque continuamos discutindo educação predominantemente pela ótica da política que será criada e muito pouco pela engenharia que fará essa política funcionar.

A cada ciclo surgem novos planos.

Novos programas.

Novos nomes.

Novas plataformas.

Novas metas.

Novas regulamentações.

Algumas excelentes.

Mas uma política pública não transforma a vida de um estudante quando é publicada no Diário Oficial.

Não transforma quando é anunciada numa cerimônia.

Nem mesmo quando o recurso é transferido.

Ela transforma quando chega à escola, entra na sala de aula, modifica uma prática pedagógica e produz aprendizagem verificável.

Esse percurso entre Brasília e a carteira do estudante talvez seja uma das maiores questões ainda não resolvidas da educação brasileira.

Somos uma federação com milhares de redes de ensino e enormes diferenças de capacidade administrativa, tecnológica, financeira e pedagógica.

Tratamos sistemas profundamente desiguais, muitas vezes, como se possuíssem igual capacidade de execução.

Não possuem.

O resultado é conhecido: excelentes políticas podem produzir resultados extraordinários em algumas redes, razoáveis em outras e quase nenhum efeito onde justamente seriam mais necessárias.

Os dados do próprio PISA expõem essa desigualdade. Em ciências, a diferença entre os estudantes brasileiros socioeconomicamente mais favorecidos e os menos favorecidos chegou a 96 pontos, acima da diferença média encontrada na OCDE. E, entre 2015 e 2025, essa distância aumentou no Brasil.

Talvez esteja na hora, portanto, de invertermos a lógica.

Antes de perguntar qual será o próximo grande programa educacional brasileiro, deveríamos perguntar como faremos os programas que já sabemos ser necessários efetivamente funcionarem.

Como identificar a defasagem antes que ela se transforme em abandono?

Como apoiar de forma diferente quem parte de condições diferentes?

Como formar professores para problemas reais de sala de aula?

Como utilizar dados enquanto ainda é possível intervir, e não apenas para explicar posteriormente por que fracassamos?

Como usar inteligência artificial para personalizar a aprendizagem sem terceirizar para uma máquina o esforço cognitivo que o estudante precisa desenvolver?

Como aproveitar toda a capacidade instalada disponível — pública e privada — para ampliar acesso, qualidade e velocidade sem necessariamente multiplicar estruturas?

E, sobretudo:

como medir continuamente se alguém realmente aprendeu?

O PISA não deveria servir para, a cada três anos, produzirmos manchetes indignadas durante algumas semanas.

Deveria funcionar como uma auditoria da nossa estratégia.

E a auditoria de 2025 traz um recado difícil de ignorar.

O Brasil não precisa apenas fazer mais pela educação.

Precisa aprender a fazer diferente.

Porque mudar o nome dos programas, aumentar o número de iniciativas e repetir a mesma arquitetura de execução dificilmente produzirá resultados diferentes.

Depois de tantos planos, diagnósticos e metas, talvez a pergunta mais revolucionária da educação brasileira seja também a mais simples:

Como fazer acontecer?

Não perca nada!

hlpensandoforadacaixa@gmail.com