A NOVA UNIVERSIDADE PÚBLICA
Mais acesso. Mais tecnologia. Mais eficiência. Menor custo. Mais entrega.
Por Hélio Laranjeira
9/9/20264 min read


O Brasil precisa parar de discutir a universidade pública apenas pela quantidade de dinheiro que ela recebe e começar a discutir quanto conhecimento, oportunidade, inovação e transformação social ela entrega para cada real investido.
Não se trata de enfraquecer a universidade pública. É exatamente o contrário.
Trata-se de reconstruí-la para o século XXI.
A universidade que herdamos foi organizada para um mundo analógico: prédios, salas, horários rígidos, currículos extensos, estruturas administrativas pesadas e uma lógica em que expansão quase sempre significa construir mais, contratar mais e gastar mais.
Esse modelo encontrou seu limite.
A tecnologia mudou a forma como trabalhamos, pesquisamos, produzimos conhecimento e aprendemos. A inteligência artificial está transformando profissões em uma velocidade jamais experimentada. O conhecimento, que antes estava concentrado dentro das universidades, está hoje distribuído em plataformas, laboratórios, empresas, redes de pesquisa e sistemas digitais espalhados pelo mundo.
Mas parte da universidade continua funcionando como se a internet ainda não tivesse sido inventada.
É preciso uma grande metanoia.
A nova universidade pública deve deixar de ser apenas um conjunto de prédios e cursos para se transformar em uma plataforma pública de conhecimento, formação, ciência e inovação.
Isso significa fazer mais — muito mais — com a infraestrutura que o país já possui.
Uma sala utilizada apenas algumas horas por dia é um ativo público subutilizado.
Um laboratório que funciona apenas em determinado turno é capacidade científica desperdiçada.
Um professor produzindo repetidamente conteúdos que poderiam ser compartilhados nacionalmente representa duplicação de esforço.
Uma universidade que atende exclusivamente quem consegue estar fisicamente dentro de seus muros limita artificialmente sua própria missão pública.
A primeira mudança, portanto, precisa ser de arquitetura.
Presencial onde o presencial agrega valor.
Digital onde o digital amplia acesso.
Híbrido onde a combinação das duas modalidades melhora aprendizagem, eficiência e escala.
Laboratórios, práticas profissionais, pesquisa experimental, interação humana e atividades que exigem infraestrutura permanecem presenciais.
Mas conteúdos teóricos, atividades de acompanhamento, tutorias, bibliotecas digitais, parte das avaliações, conteúdos complementares e inúmeras experiências acadêmicas podem ser apoiados por tecnologia.
Não é substituir o professor.
É libertar o professor daquilo que a tecnologia pode fazer melhor para que ele possa fazer aquilo que somente o professor pode fazer extraordinariamente bem.
Inteligência artificial como infraestrutura educacional
A universidade pública precisa incorporar inteligência artificial não como curiosidade tecnológica, mas como infraestrutura.
Cada estudante poderá ter acesso a tutoria digital permanente.
A IA poderá identificar dificuldades de aprendizagem, recomendar conteúdos, produzir exercícios personalizados, apoiar professores, organizar informações, detectar estudantes em risco de evasão e ampliar a acessibilidade.
O estudante deixa de depender exclusivamente das poucas horas de contato semanal com o professor.
A aprendizagem passa a funcionar todos os dias.
Isso é democratização.
Universidade modular e aprendizagem ao longo da vida
Outro paradigma precisa cair: a ideia de que toda formação superior precisa acontecer exclusivamente em grandes blocos curriculares de quatro ou cinco anos.
A economia contemporânea exige atualização permanente.
A nova universidade precisa trabalhar também com micro credenciais, certificações intermediárias, módulos de competências e percursos formativos acumuláveis.
O trabalhador poderá entrar, aprender determinada competência, ser certificado, retornar ao mercado de trabalho e continuar sua formação posteriormente.
Educação superior deixa de ser um episódio da juventude.
Passa a ser uma infraestrutura disponível durante toda a vida.
Universidade conectada à educação profissional
Também não faz sentido manter muros artificiais entre educação técnica, graduação, extensão, pós-graduação, pesquisa e formação continuada.
A nova universidade deve constituir um ecossistema verticalizado de aprendizagem.
Um jovem pode iniciar uma formação técnica, acumular competências, avançar para uma graduação tecnológica, posteriormente concluir uma graduação, especialização ou pós-graduação.
O conhecimento adquirido não deve ser desperdiçado.
Deve ser reconhecido, certificado e acumulado.
A universidade precisa voltar a conversar com o território
Cada universidade pública deveria conhecer profundamente o território onde está inserida.
Quais setores econômicos crescem?
Quais profissões estão desaparecendo?
Quais competências as empresas procuram?
Onde estão os déficits de profissionais?
Quais problemas sociais podem ser solucionados pela pesquisa?
Quais cadeias produtivas podem ser fortalecidas?
A universidade precisa abandonar parte da lógica de oferecer cursos simplesmente porque sempre os ofereceu.
A oferta acadêmica precisa dialogar permanentemente com demanda social, desenvolvimento regional, ciência, tecnologia e mundo do trabalho.
Isso não significa subordinar a universidade ao mercado.
Significa impedir que a universidade se torne indiferente à sociedade que a financia.
E precisamos começar a medir resultados
A universidade pública brasileira precisa desenvolver uma cultura radical de dados.
Não apenas: quanto gastamos?
Mas: Quanto custa formar um estudante?
Quanto custa uma conclusão?
Quantos estudantes abandonam?
Quanto tempo levam para concluir?
Quantos conseguem emprego?
Quanto aumenta sua renda?
Quantos projetos de pesquisa chegam à sociedade?
Quantas patentes?
Quantas soluções tecnológicas?
Quantas empresas foram apoiadas?
Quanto investimento em pesquisa foi atraído?
Qual impacto a universidade produz sobre sua região?
Porque recurso público não deve ser medido apenas pela execução orçamentária.
Precisa ser medido pela transformação produzida.
Expandir sem multiplicar custos na mesma proporção
Esse talvez seja o grande salto.
O Brasil pode ampliar enormemente o acesso à universidade pública sem precisar multiplicar prédios, campi e estruturas administrativas na mesma proporção.
Infraestrutura compartilhada.
Conteúdos digitais reutilizáveis.
Laboratórios funcionando em múltiplos turnos.
Redes interuniversitárias.
Professores compartilhando disciplinas e conteúdos.
Plataformas nacionais.
IA educacional.
Bibliotecas digitais.
Microcredenciais.
Ensino híbrido.
Parcerias com empresas, municípios, escolas técnicas e centros tecnológicos.
O princípio passa a ser simples:
antes de construir uma nova estrutura, utilizar melhor a estrutura existente.
Essa não é uma política de redução da universidade pública.
É uma política de multiplicação de sua capacidade.
A universidade do século XXI não será medida pelo tamanho de seus muros.
Será medida pelo tamanho de seu alcance.
Não será a universidade que possui mais salas.
Será aquela que produz mais aprendizagem.
Não será aquela que acumula mais burocracia.
Será aquela que transforma conhecimento em ciência, inovação, desenvolvimento e oportunidade.
Porque a grande pergunta deixou de ser: “Quanto custa a universidade pública?”
A pergunta correta é: “Quanto custa para o Brasil continuar mantendo uma universidade desenhada para um mundo que já não existe?”
E essa era a essência da nossa nova universidade pública: mais acessível, tecnológica, inteligente, eficiente e muito mais próxima da sociedade.

