A nova ordem da educação superior é cognitiva, não ideológica
Hélio Laranjeira
2/10/20263 min read


Vivemos um momento histórico singular. O mundo atravessa, ao mesmo tempo, uma revolução tecnológica, científica e cognitiva. A medicina foi transformada por diagnósticos de precisão, a engenharia por softwares avançados, a indústria por automação e dados, a comunicação por inteligência artificial. O modo de produzir conhecimento mudou radicalmente.
A educação, porém, mudou muito pouco.
Esse descompasso não é apenas pedagógico. É estrutural. Enquanto quase todos os campos se reinventaram, a forma de ensinar e aprender permaneceu ancorada em modelos que pouco dialogam com a ciência da aprendizagem e com o funcionamento real do cérebro humano. O resultado é um sistema que promete excelência, mas opera com bases frágeis.
A educação superior é frequentemente chamada a resolver problemas que não nasceram nela. A universidade recebe estudantes com déficits acumulados de linguagem, lógica, abstração e pensamento científico e tenta corrigir, em quatro ou cinco anos, o que foi mal construído ao longo de toda a educação básica. Quando falha, o fracasso costuma ser atribuído à própria universidade, como se o problema começasse ali.
Mas ele começa muito antes.
A formação cognitiva se constrói desde a primeira infância. É nesse período que se estruturam as bases da aprendizagem, da linguagem, da capacidade de análise e da construção de sentido. Erros acumulados ao longo desse percurso chegam à educação superior como um problema já consolidado, difícil de reverter em pouco tempo.
Por isso, a pergunta central não é apenas sobre acesso ao ensino superior. É mais profunda: que tipo de inteligência chega à universidade? Que capacidade real de análise, criação, pesquisa e formulação científica foi construída antes disso?
No Brasil, indicadores médios de desempenho cognitivo costumam gerar desconforto. Mas esses dados não devem ser lidos como julgamento moral de uma população. São sinais objetivos de um modelo educacional desconectado da ciência da aprendizagem. Ignorá-los não os faz desaparecer — apenas perpetua o problema.
Há ainda um erro estrutural persistente: a forma como tratamos o professor. Ao longo do tempo, a docência foi sendo reduzida à função de transmissão de conteúdo, como se ensinar fosse apenas repetir informações. Isso esvazia o papel docente e ignora uma verdade fundamental: professores são, ou deveriam ser, cientistas da aprendizagem.
Não há transformação educacional possível sem recolocar o professor no centro do sistema — não como executor de apostilas, mas como agente cognitivo, pesquisador da aprendizagem e construtor de inteligência coletiva. Isso exige outra formação, outra valorização e outra estrutura institucional. Sem isso, qualquer promessa de inovação tende a ser superficial.
Outro problema silencioso, mas decisivo, é a fragmentação do sistema educacional. Fala-se em inovação, inclusão e equidade, mas escola, universidade, legislação e mercado operam em tempos diferentes. As políticas não se conectam, a prática não acompanha o discurso e o sistema perde eficiência. O resultado é retrabalho, desperdício de recursos e baixo impacto real.
O paradoxo fica ainda mais claro quando olhamos para outras áreas. A tecnologia médica evoluiu rapidamente, mas a educação médica mudou pouco. A engenharia incorporou novos instrumentos e materiais, mas a forma de ensinar engenharia permanece quase a mesma. Evoluímos na tecnologia das profissões, mas não na tecnologia de ensinar e aprender essas profissões.
Uma sociedade não constrói desenvolvimento sustentável apoiando-se apenas em nichos isolados de excelência. Educação de qualidade precisa ser sistêmica, ampla e coerente. Em um país desigual e continental como o Brasil, aceitar uma educação fragmentada significa perpetuar diferenças cognitivas que mais tarde se refletem na ciência, na inovação e na capacidade de produzir conhecimento relevante.
Sem base educacional sólida, não há ciência forte.
Sem ciência forte, não há inovação consistente.
Sem inovação, não há soberania intelectual nem futuro sustentável.
É nesse encadeamento que surge a necessidade de uma nova ordem da educação superior. Não como bandeira ideológica, mas como exigência cognitiva, científica e estrutural. Não se trata de ruptura vazia, mas de reorganização baseada em método, ciência da aprendizagem e coerência sistêmica.
Insistir em ensinar do mesmo modo, em um mundo que já mudou, é a forma mais segura de continuar obtendo os mesmos resultados.
E o tempo para enfrentar essa incoerência não é amanhã.
É agora.

