A IA DA FÉ

A inteligência da antecipação em um mundo obcecado por previsões

REFLEXÃO

Hélio Laranjeira

9/7/20265 min read

Vivemos fascinados pela inteligência artificial. E com razão.

Nunca tivemos à disposição instrumentos capazes de processar tamanha quantidade de informação, identificar padrões, projetar cenários e produzir respostas em tão pouco tempo. A IA já interfere na educação, na medicina, na indústria, no mercado financeiro, na comunicação e, progressivamente, nas decisões que tomamos todos os dias.

Mas talvez, exatamente no momento em que desenvolvemos máquinas cada vez melhores para prever, precisemos recuperar uma capacidade profundamente humana: a de nos preparar para aquilo que ainda não podemos ver.

É nesse sentido que gosto de provocar com uma expressão: existe também uma IA da fé.

Não como equivalência entre religião e tecnologia. São campos completamente distintos. Refiro-me à Inteligência da Antecipação: a capacidade de agir hoje de maneira coerente com aquilo em que se acredita, mesmo quando o resultado ainda não está visível.

Uma antiga passagem bíblica oferece uma imagem extraordinariamente contemporânea dessa ideia.

Em 2 Reis 3, três reis partem para uma campanha militar. Há exércitos, estratégia, autoridade e planejamento. Mas, depois de sete dias, surge um problema elementar: falta água.

Toda a sofisticação militar daquele empreendimento encontra seu limite diante de uma necessidade básica.

É difícil não enxergar uma metáfora para o nosso próprio tempo.

Temos algoritmos. Temos satélites. Temos sistemas preditivos. Temos bilhões de dados circulando a cada instante. Temos uma capacidade tecnológica que pareceria sobrenatural para alguém de poucas gerações atrás.

E, ainda assim, continuamos enfrentando situações diante das quais precisamos admitir:

não temos todas as respostas.

É nesse ponto que a fé começa a ocupar um espaço interessante — não como substituta da razão, mas como uma categoria diferente de relação com a incerteza.

A inteligência artificial pergunta: com os dados disponíveis, qual é o cenário mais provável?

A fé pergunta: diante daquilo em que confio, qual postura devo assumir, mesmo antes de possuir todas as evidências do resultado?

No relato bíblico, o profeta Eliseu apresenta uma orientação curiosa: mandem fazer covas no vale.

O problema era água.

Mas a primeira providência não foi localizar a água.

Foi criar capacidade para recebê-la.

Essa imagem contém uma pedagogia poderosa.

A fé, pelo menos naquela narrativa, não produz passividade. Ao contrário. Produz trabalho.

Ninguém recebe a instrução de sentar e simplesmente aguardar uma intervenção divina. Há uma ordem concreta: cavem.

A água não estava sob o controle daqueles homens.

As covas, sim.

Talvez exista aqui uma síntese preciosa para a vida contemporânea: há acontecimentos que não controlamos, mas existe uma preparação que depende exclusivamente de nós.

Essa é uma fronteira que nem sempre respeitamos.

Queremos oportunidades, mas nem sempre construímos competência.

Queremos crescimento, mas não organizamos estrutura.

Queremos inovação, mas não criamos ambientes capazes de sustentá-la.

Queremos desenvolvimento econômico, mas negligenciamos a formação das pessoas que deverão produzi-lo.

Queremos uma educação melhor, mas frequentemente discutimos resultados sem construir a arquitetura necessária para alcançá-los.

Em outras palavras, queremos água sem cavar as covas.

E talvez uma das perguntas mais importantes para pessoas, empresas, escolas e governos seja justamente esta: se a oportunidade pela qual esperamos chegasse amanhã, teríamos capacidade para recebê-la?

Uma empresa pode desejar multiplicar seu tamanho e descobrir que não possui governança para administrar o crescimento.

Uma instituição educacional pode falar diariamente em inovação e continuar utilizando estruturas incapazes de acolher qualquer mudança verdadeira.

Um país pode anunciar reindustrialização, inteligência artificial, transição energética e uma nova economia enquanto ainda não consegue formar, na velocidade necessária, os profissionais que essa economia exigirá.

Nessas situações, o problema já não é apenas a ausência da oportunidade.

É a ausência da cova.

Há outra dimensão particularmente interessante nessa passagem.

O texto diz que não haveria vento nem chuva visíveis e, ainda assim, o vale receberia água.

Somos extraordinariamente dependentes de sinais.

Gostamos de agir depois que alguma coisa começa a acontecer.

Investimos quando o mercado já cresceu.

Mudamos quando a crise já chegou.

Capacitamos quando a tecnologia já substituiu determinadas funções.

Reformamos a educação quando os indicadores já mostram o tamanho do atraso.

A lógica da antecipação é diferente.

Ela pergunta: o que precisamos construir hoje para uma realidade que ainda não se tornou completamente visível?

Esse é um raciocínio que deveria estar presente, inclusive, nas políticas públicas.

Quando um país projeta quais profissões existirão dentro de dez anos e começa agora a formar pessoas para elas, está cavando covas.

Quando uma escola percebe que a inteligência artificial modificará radicalmente a avaliação, o currículo e o trabalho docente e começa a preparar seus professores antes que a transformação se torne irreversível, está cavando covas.

Quando alguém continua estudando antes que apareça uma oportunidade profissional, está cavando covas.

Antecipação não é adivinhação.

Essa distinção é fundamental.

Não se trata de pensamento mágico, de simplesmente desejar alguma coisa e considerá-la garantida.

Fé não deveria ser confundida com presunção.

Desejo diz: “Eu quero que aconteça.”

Presunção afirma: “Acontecerá porque quero.”

Fé, numa interpretação madura, diz algo diferente: “Eu confio suficientemente para orientar minhas ações de maneira coerente com essa confiança.”

É por isso que a cova é tão importante.

Ela converte convicção em comportamento.

E talvez seja justamente nesse ponto que a discussão sobre inteligência artificial encontre uma questão essencialmente humana.

A IA poderá prever cada vez melhor.

Poderá aconselhar.

Simular possibilidades.

Encontrar relações que nossos olhos não conseguem perceber.

Diminuir incertezas.

Mas nenhuma inteligência artificial elimina a responsabilidade humana pela decisão.

Ela pode dizer o que provavelmente acontecerá.

Ainda precisaremos decidir o que merece acontecer.

Ela pode indicar o caminho mais eficiente.

Nós ainda precisaremos discutir para onde queremos ir.

Ela pode otimizar uma escola.

Mas não define, sozinha, o que consideramos uma boa educação.

Pode ampliar nossa capacidade.

Não substitui nossos valores.

É por isso que tecnologia e fé não precisam ser adversárias.

O verdadeiro debate não é se devemos escolher entre uma e outra.

A questão é se teremos maturidade para utilizar toda a inteligência tecnológica disponível sem abandonar consciência, propósito, responsabilidade e sentido.

Quanto mais inteligentes nossas máquinas se tornam, mais importante será saber que tipo de seres humanos queremos ser.

E existe ainda uma última provocação.

Talvez nossas grandes oportunidades não comecem quando a água aparece.

Elas começam quando decidimos cavar.

O resultado visível costuma receber todo o reconhecimento. Quase ninguém vê o período de preparação.

Antes de uma competência, existe treinamento.

Antes de uma empresa sustentável, existe estrutura.

Antes de uma descoberta, existe pesquisa.

Antes de uma transformação educacional, existem anos de formação, planejamento e construção institucional.

O que chamamos de sucesso repentino muitas vezes é apenas a parte visível de uma preparação que durou muito tempo.

Nesse sentido, talvez a fé possa ser compreendida também como uma inteligência sobre o tempo.

O imediatismo diz:

“Quando acontecer, eu me preparo.”

A antecipação responde:

“Eu me preparo agora porque aquilo em que acredito exige responsabilidade no presente.”

Não sei se conseguiremos prever tudo o que a inteligência artificial fará nos próximos anos.

Provavelmente não.

Também não podemos antecipar todas as crises, oportunidades e transformações que encontraremos.

Mas podemos decidir que tipo de capacidade construiremos enquanto esperamos.

Podemos estudar.

Podemos formar pessoas.

Podemos criar instituições melhores.

Podemos preparar nossas escolas.

Podemos organizar nossas empresas.

Podemos fortalecer nossas relações.

Podemos desenvolver competência.

Podemos cavar.

Porque talvez essa seja uma das mais bonitas lições daquele antigo vale:

não nos cabe controlar toda a água que virá.

Mas continua sendo nossa responsabilidade construir as covas.

E, num tempo fascinado pela inteligência capaz de prever o futuro, talvez precisemos redescobrir uma inteligência ainda profundamente humana: a capacidade de construir, no presente, aquilo que será necessário para receber o futuro em que acreditamos.

Não perca nada!

hlpensandoforadacaixa@gmail.com